Malchut HaShamayim Al HaAretz - O Reino Milenar na Terra
Estudo Bíblico

Malchut HaShamayim Al HaAretz
O Reino Milenar na Terra: uma cronologia
profética do Trono de Davi ao Governo de Yeshua HaMashiach
Este estudo percorre a linha profética da Escritura, do chamado de Abraão
até a Nova Jerusalém, na ordem em que os próprios acontecimentos se desenrolam.
O objetivo é mostrar, passo a passo, que a promessa de Deus ao homem sempre foi
a terra — nunca uma evacuação para os céus — e que o Reino milenar de Yeshua é
o cumprimento literal e geograficamente situado dessa promessa, com centro em
Jerusalém e trono estabelecido na linhagem de Davi.
PASSO 1 — A promessa: a terra, não os céus
O fundamento na Aliança Abraâmica
Tudo começa com uma promessa de terra, não de céu. Quando Deus chama
Abrão em Ur dos caldeus e o conduz a Canaã, Ele não lhe promete um destino
celestial após a morte — Ele lhe promete um território concreto, com
fronteiras, para ele e sua descendência:
E disse o SENHOR a Abrão, depois que Ló se apartou dele:
Levanta agora os teus olhos, e olha desde o lugar onde estás, para o norte, e
para o sul, e para o oriente, e para o ocidente; porque toda esta terra que
vês, te hei de dar a ti e à tua descendência para sempre... Levanta-te,
percorre esta terra, no seu comprimento e na sua largura; porque a darei a ti. (Gênesis 13:14-17)
Esta promessa é repetida e ampliada ao longo de toda a Torá e dos
Profetas, e nunca é reinterpretada como promessa de um destino celestial. Pelo
contrário, o Salmo estabelece a divisão de jurisdição com absoluta clareza: os
céus pertencem a Deus como Seu próprio domínio; a terra, Ele a entregou à
administração humana.
Os céus pertencem ao SENHOR; mas a terra, ele a deu aos
filhos dos homens. (Salmo 115:16)
Este versículo é o eixo de todo o presente estudo. Se a terra foi dada
aos filhos dos homens — e nunca retomada como promessa cancelada — então a
esperança final da redenção não pode ser uma remoção da humanidade da terra
para os céus, mas a restauração do governo correto sobre a própria terra que já
lhe fora concedida desde o princípio. Yeshua confirma essa mesma lógica
territorial ao abrir o Sermão do Monte, citando diretamente o Salmo 37:
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra. (Mateus 5:5)
Note-se que Ele não diz "herdarão os céus". A bem-aventurança
promete exatamente aquilo que a Aliança Abraâmica já prometia: posse da terra.
Isso não é um detalhe incidental — é o fio condutor que vamos seguir do início
ao fim deste estudo.
PASSO 2 — A forma do Reino: a dinastia de Davi
O trono terreno prometido a Davi
Com o passar dos séculos, a promessa da terra se concentra numa promessa
mais específica ainda: um trono, uma dinastia, um governo situado em Jerusalém.
Quando Davi já está estabelecido como rei e deseja construir um templo para o
SENHOR, Deus responde através do profeta Natã com uma aliança que vai além do
próprio Davi — promete que sua casa, seu reino e seu trono serão estabelecidos
para sempre:
Quando teus dias forem cumpridos, e vieres a dormir com
teus pais, então farei levantar depois de ti a tua descendência, que procederá
de teu corpo, e estabelecerei o seu reino. Ele edificará uma casa ao meu nome,
e eu estabelecerei o trono do seu reino para sempre... Será firme a tua casa e
o teu reino para sempre diante de ti; e teu trono será firme para sempre. (2 Samuel 7:12-13,16)
Isso é o que a tradição judaica chama de Aliança Davídica — e é crucial
entender que "trono de Davi" nunca foi, para nenhum leitor hebreu do
Antigo Testamento, uma metáfora de um trono celestial abstrato. Era, e continua
sendo, uma referência concreta a Jerusalém, à cidade de Davi, ao lugar
geográfico de onde ele e seus descendentes governaram literalmente o povo de
Israel. Isaías amplia essa promessa dinástica para um Filho vindouro, cujo
governo será eterno e será exercido precisamente sobre esse mesmo trono:
Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o
principado está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso,
Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz. Do aumento do seu
domínio e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e sobre o seu reino,
para o firmar e o fortificar em juízo e em justiça, desde agora e para sempre;
o zelo do SENHOR dos Exércitos fará isto. (Isaías 9:6-7)
Séculos depois, quando o anjo Gabriel anuncia a Miriam (Maria) a
concepção de Yeshua, ele não inventa uma nova promessa — ele simplesmente
declara o cumprimento exato dessa antiga aliança davídica, com a mesma
terminologia territorial e dinástica:
Este será grande, e será chamado filho do Altíssimo; e o
Senhor Deus lhe dará o trono de Davi seu pai; e reinará eternamente sobre a
casa de Jacó, e o seu reino não terá fim. (Lucas 1:32-33)
Um judeu do primeiro século, ouvindo essas palavras, não pensaria em
nenhuma hipótese de trono celestial invisível — pensaria exatamente no que o
texto diz: o trono de Davi, em Jerusalém, ocupado finalmente por Aquele a quem
ele de direito pertence.
PASSO 3 — O panorama profético dos impérios
A estátua de Nabucodonosor e a pedra cortada
sem mãos

Enquanto a promessa davídica ainda aguardava cumprimento, Israel passou
pelo exílio babilônico, e foi justamente ali, em meio à corte pagã de
Babilônia, que Deus revelou a Nabucodonosor — e depois, através de Daniel,
também a nós — o panorama profético completo da história dos impérios humanos
até o estabelecimento final do Reino messiânico. O rei sonha com uma estátua
composta de metais decrescentes em valor, mas crescentes em dureza:
Tu, ó rei, estavas vendo, e eis aqui uma grande estátua;
esta estátua, que era imensa, e cujo esplendor era excelente, estava em pé
diante de ti, e a sua aparência era terrível. A cabeça desta estátua era de
ouro fino; o peito e os braços de prata; o ventre e as coxas de bronze; as
pernas de ferro; os pés em parte de ferro e em parte de barro. (Daniel 2:31-33)
Daniel identifica a cabeça de ouro como o próprio império babilônico de
Nabucodonosor (Daniel 2:38), e a sucessão de metais representa os impérios que
se seguiriam — historicamente identificados como Medo-Pérsia (prata), Grécia
(bronze) e Roma (ferro), com seus desdobramentos finais representados pelos pés
de ferro misturado com barro, uma mistura instável de força e fragilidade. É
precisamente nesse ponto final da sequência, nos pés da estátua, que a cena
decisiva acontece:
Estavas vendo isto, quando uma pedra foi cortada, sem
auxílio de mãos, a qual feriu a estátua nos seus pés de ferro e de barro, e os
fez em pedaços. Então o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro foram
juntamente esmiuçados, e se tornaram como a pragana das eiras no estio, e o
vento os levou, e não se achou lugar algum para eles; a pedra, porém, que feriu
a estátua, se tornou um grande monte, e encheu toda a terra. (Daniel 2:34-35)
Repare com atenção no movimento geográfico descrito aqui, porque ele é a
chave de todo o presente estudo: a pedra não sobe — ela golpeia a estátua onde
a estátua está, na terra, e depois de destruí-la, ela mesma cresce, ali, no
mesmo lugar, até encher toda a terra. Não há nenhum momento em que a estátua,
os impérios humanos, sejam levados para o céu para lá serem julgados; e não há
nenhum momento em que a pedra suba aos céus depois de ferir os pés. O evento
inteiro acontece na terra, do início ao fim. Daniel interpreta essa pedra
diretamente como o Reino de Deus, um reino que virá substituir definitivamente
os impérios humanos, no mesmo palco histórico onde eles reinaram:
Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um
reino que não será jamais destruído; e esse reino não passará a outro povo; ele
esmiuçará e destruirá todos esses reinos, mas o mesmo será estabelecido para
sempre. Da maneira que viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de
mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro, o grande
Deus fez saber ao rei o que há de suceder no futuro; e o sonho é verdadeiro, e
a sua interpretação, fiel. (Daniel
2:44-45)
A frase "o Deus do céu levantará um reino" descreve a origem do
Reino — Ele vem de Deus, do céu — mas não descreve sua localização final. A
pedra é cortada de um monte (origem celestial, divina) mas atinge, esmaga e
cresce na terra (localização e extensão do Reino). Essa distinção entre origem
e localização é essencial: o Reino vem do céu, mas não permanece no céu — ele
se estabelece e se expande precisamente onde a estátua caiu, isto é, na terra
dos homens.
PASSO 4 — O relógio profético: as Setenta Semanas de Daniel
Daniel 9 e o cronograma até o Ungido

Se Daniel 2 nos dá o panorama geral da história, Daniel 9 nos dá o
relógio exato — um cronograma preciso, medido em "semanas" (שָׁבֻעִים,
shavuim, período de sete anos cada), que conduz diretamente até a chegada do
Messias. Este texto é o campo de batalha exegético mais importante contra o
sistema dispensacionalista, e por isso merece ser lido devagar. O anjo Gabriel
diz a Daniel:
Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e
sobre a tua santa cidade, para fazer cessar a transgressão, e dar fim aos
pecados, e expiar a iniquidade, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a
profecia, e ungir o Santo dos Santos.
(Daniel 9:24)
Note que o texto já declara, de saída, seis objetivos que serão cumpridos
dentro dessas setenta semanas — entre eles "expiar a iniquidade" e
"trazer a justiça eterna", linguagem que aponta diretamente para a
obra expiatória do Messias, não para eventos de um suposto
"anticristo" futuro. O texto então fornece um ponto de partida
cronológico explícito e um ponto de chegada igualmente explícito:
Sabe, pois, e entende: desde a saída da ordem para
restaurar e para edificar a Jerusalém até ao Ungido, o Príncipe, sete semanas;
e sessenta e duas semanas, as ruas e os muros se tornarão a edificar, mas em
tempos angustiosos. (Daniel 9:25)
Sete semanas mais sessenta e duas semanas somam sessenta e nove semanas
de anos — quatrocentos e oitenta e três anos proféticos — contados a partir do
decreto de reconstrução de Jerusalém até a chegada do "Ungido, o
Príncipe" (o Messias). Este cálculo, quando aplicado aos decretos persas
de reconstrução mencionados em Esdras e Neemias, conduz historiadores bíblicos
de tradições diversas ao ministério público de Yeshua no primeiro século — não
a um evento futuro ainda por vir. O próximo versículo é decisivo, porque
descreve o que acontece imediatamente depois dessas sessenta e nove semanas:
E depois das sessenta e duas semanas será morto o Ungido,
e nada terá; e o povo do príncipe que há de vir destruirá a cidade e o
santuário, e o fim dela será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra, e
assolações estão determinadas. (Daniel
9:26)
"Será morto o Ungido, e nada terá" — no hebraico original,
ve-ein lo (וְאֵין לוֹ), literalmente "e não haverá para ele", ou
seja: o Messias seria cortado, morto, sem ainda possuir o reino, sem ainda se
assentar sobre o trono prometido a Davi. Essa é uma descrição
extraordinariamente precisa da crucificação de Yeshua: Ele morre sem, naquele
momento, reinar visivelmente sobre Jerusalém — o Reino visível fica para
depois. O versículo também profetiza a destruição da cidade e do santuário por
"o povo do príncipe que há de vir" — cumprido historicamente pelas
legiões romanas de Tito em 70 d.C., quando o Templo foi destruído.
Chegamos, então, ao versículo mais disputado de toda a profecia de Daniel
— a septuagésima semana, o último bloco de sete anos:
Ele confirmará a aliança com muitos por uma semana, e na
metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares; e sobre a asa
das abominações virá o assolador, e isto até que a destruição total e
determinada se derrame sobre o assolador. (Daniel 9:27)
O sistema dispensacionalista lê este "ele" como se fosse um
novo personagem — um "anticristo" futuro que fará um pacto de sete
anos com Israel, ainda por cumprir em nossos dias, e insere entre os versículos
26 e 27 um hiato de quase dois mil anos, sem nenhuma indicação textual de que
tal intervalo exista. Mas a leitura gramaticalmente mais natural do texto é que
o sujeito de "ele confirmará a aliança" é o mesmo sujeito do
versículo anterior — o próprio Ungido, o Messias, que já foi apresentado como
protagonista de toda a passagem. Sob essa leitura, que é a leitura histórica
mais direta, a septuagésima semana descreve o próprio ministério de Yeshua: os
primeiros três anos e meio correspondem ao Seu ministério terreno, culminando
na cruz, onde Ele "faz cessar o sacrifício e a oferta de manjares" ao
cumprir de uma vez por todas aquilo que os sacrifícios do Templo apenas
prefiguravam (Hebreus 10:10-14); os três anos e meio finais correspondem à
extensão dessa mesma aliança, através do testemunho apostólico, primeiramente
ao povo judeu, num período que se estende até a destruição do Templo em 70 d.C.
Sob esta leitura, portanto, a septuagésima semana já se cumpriu integralmente
no primeiro século — e não existe, hoje, nenhuma semana profética pendente de
cumprimento futuro.
PASSO 5 — A era da igreja: o campo onde trigo e joio crescem juntos
Por que não há arrebatamento antes de uma
tribulação de sete anos
É exatamente neste ponto da cronologia — durante a era da igreja, entre a
primeira vinda e a segunda vinda de Yeshua — que o sistema dispensacionalista
insere sua doutrina mais conhecida: um "arrebatamento" no qual a
Igreja seria subitamente retirada da terra para os céus, permanecendo lá
durante um período de sete anos de "Grande Tribulação", e só então
retornando à terra junto com o Messias para o Milênio. Já demonstramos no Passo
4 que essa doutrina depende de projetar a septuagésima semana de Daniel para um
futuro ainda não cumprido — um passo que o próprio texto de Daniel não
autoriza. Mas há uma segunda linha de evidência, ainda mais direta, que vem dos
lábios do próprio Yeshua, e que fecha definitivamente essa questão: a parábola
do trigo e do joio.
Yeshua conta a história de um homem que semeia boa semente em seu campo,
mas cujo inimigo semeia joio no meio do trigo, durante a noite. Quando os
servos perguntam se devem arrancar o joio imediatamente, o senhor responde:
Não; para que ao ajuntar o joio, não arranqueis também
com ele o trigo. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da
ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o
queimar, mas ajuntai o trigo no meu celeiro. (Mateus 13:29-30)
Mais adiante, os discípulos pedem a Yeshua que explique essa parábola, e
Ele mesmo fornece a interpretação, sem deixar espaço para especulação alheia:
E ele, respondendo, disse-lhes: O que semeia a boa
semente é o Filho do Homem; o campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do
reino; e o joio são os filhos do maligno; O inimigo que o semeou é o Diabo; e a
ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos. Deixe-se, pois, o joio, e
queima-se no fogo, assim será na consumação deste mundo. (Mateus 13:37-40)
O ponto é estrutural, e por isso é decisivo: o próprio Yeshua ordena
explicitamente que o trigo e o joio cresçam juntos, no mesmo campo, até a mesma
ceifa. Não há, nessa parábola, nenhuma separação prévia entre a colheita do
trigo (os santos) e a colheita do joio (os ímpios) — a separação ocorre num
único evento, no fim da era, com os anjos realizando ambas as tarefas
simultaneamente. Se o esquema dispensacionalista estivesse correto, e os santos
fossem retirados da terra para os céus sete anos antes do julgamento final das
nações, o trigo já teria sido recolhido ao celeiro muito antes da colheita do
joio — exatamente o cenário que a própria parábola de Yeshua proíbe ao dizer
"deixai crescer ambos juntos até à ceifa". Não existe, portanto, base
para uma remoção antecipada da Igreja para os céus antes do julgamento final:
trigo e joio permanecem juntos, na terra, até o mesmo dia.
O mesmo padrão cronológico se repete em outras duas parábolas
escatológicas de Yeshua no mesmo discurso. Na parábola das dez virgens, o
esposo chega numa única vinda, e a separação entre as prudentes e as insensatas
acontece nesse mesmo momento (Mateus 25:1-13). E na parábola do julgamento das
nações, a separação entre ovelhas e bodes acontece precisamente quando o Rei
vem visivelmente e se assenta:
E, quando o Filho do Homem vier em sua glória, e todos os
santos anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória, e todas as
nações serão reunidas diante dele; e apartará uns dos outros, como o pastor
aparta dos bodes as ovelhas. (Mateus
25:31-32)
Note o detalhe geográfico e institucional dessa cena: Ele se assenta num
trono — não permanece numa nuvem distante, não julga de longe a partir dos
céus, mas se assenta, como um rei se assenta para governar, numa cena de
julgamento que estabelece, ali mesmo, o início do Seu reinado visível sobre as
nações.
PASSO 6 — A vinda visível do Messias e a prisão de HaSatan
Apocalipse 19: a descida física à terra
Concluída a era da igreja — o tempo em que trigo e joio crescem juntos —,
chegamos ao evento que separa essa era do Milênio propriamente dito: a vinda
visível de Yeshua à terra, descrita em Apocalipse 19 com uma linguagem militar
e triunfal que deixa claríssimo o movimento físico e descendente do Messias:
E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava
assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça...
E seguiam-no os exércitos que há no céu em cavalos brancos, e vestidos de linho
fino, branco e puro. (Apocalipse
19:11,14)
Ele desce montado, à frente de exércitos que também descem — a cena
inteira se desenrola em movimento de cima para baixo, dos céus em direção à
terra, culminando na derrota militar e definitiva da besta e do falso profeta:
E vi a besta, e os reis da terra, e os seus exércitos,
ajuntados para fazerem guerra àquele que estava assentado sobre o cavalo, e ao
seu exército. E a besta foi presa, e com ela o falso profeta que diante dela
fizera os sinais... Estes ambos foram lançados vivos no lago de fogo que arde
com enxofre. (Apocalipse 19:19-20)
É fundamental perceber que não há, entre este capítulo e o seguinte,
nenhuma indicação textual de mudança de cenário. O relato de Apocalipse 20
continua imediatamente na mesma terra onde a besta acabou de ser derrotada — e
é justamente ali, nesse mesmo cenário terreno, que HaSatan é preso:
E vi descer do céu um anjo, que tinha a chave do abismo,
e uma grande cadeia na mão. Ele prendeu o dragão, a antiga serpente, que é o
Diabo e Satanás, e o amarrou por mil anos; E lançou-o no abismo, e ali o
encerrou, e pôs selo sobre ele, para que não mais engane as nações, até que os
mil anos se acabem; e depois importa que seja solto por um pouco de tempo. (Apocalipse 20:1-3)
Note a finalidade explícita da prisão, declarada pelo próprio texto:
impedir que HaSatan "engane as nações" — uma expressão que só faz
sentido se, durante esse período, existirem nações reais, vivas, mortais,
habitando a terra sob o governo direto do Messias. Não há "nações" a
serem enganadas ou protegidas de engano num suposto reinado exclusivamente
celestial; a linguagem do texto pressupõe exatamente o cenário terreno e
povoado que os demais textos proféticos já descreveram.
PASSO 7 — O Milênio: o trono de Davi finalmente ocupado
Zacarias 14 e o reinado visível a partir de
Jerusalém
Chegamos, então, ao Milênio propriamente dito — o cumprimento visível e
físico de tudo o que foi prometido desde a Aliança Abraâmica (Passo 1) e a
Aliança Davídica (Passo 2). Nenhum texto bíblico descreve com mais precisão
geográfica esse período do que Zacarias 14, que fixa literalmente o local onde
os pés do Messias pousarão ao retornar:
E naquele dia estarão os seus pés sobre o monte das
Oliveiras, que está defronte de Jerusalém para o oriente; e o monte das
Oliveiras se fenderá pelo meio, para o oriente e para o ocidente, fazendo um
vale muito grande; e metade do monte se apartará para o norte, e a outra metade
dele para o sul. (Zacarias 14:4)
Não existe maneira responsável de espiritualizar coordenadas geográficas
tão específicas quanto "o monte das Oliveiras, que está defronte de
Jerusalém". O texto segue descrevendo a extensão universal, mas ainda
assim terrena, desse governo:
E o SENHOR será rei sobre toda a terra; naquele dia um
será o SENHOR, e um será o seu nome.
(Zacarias 14:9)
E, mais adiante, o texto descreve algo que é impossível de encaixar em
qualquer leitura celestial ou no estado eterno final: nações mortais, vivas,
subindo anualmente a Jerusalém para adorar o Rei e celebrar uma festa agrícola
específica da Torá:
E será que todos os que restarem de todas as nações que
vieram contra Jerusalém subirão de ano em ano, para adorarem o Rei, o SENHOR
dos Exércitos, e para celebrarem a festa dos tabernáculos. (Zacarias 14:16)
Esse detalhe é decisivo: no estado eterno final, depois da Nova
Jerusalém, não há mais ciclos anuais de peregrinação agrícola, porque não há
mais nações distintas nesse sentido histórico e mortal — mas durante o Milênio,
sim, porque o Milênio é precisamente esse período intermediário em que o Rei já
reina visivelmente sobre a terra, mas as nações, ainda em corpos mortais, ainda
seguem um calendário histórico de festas e peregrinações. É também durante esse
período que se cumpre a promessa que vimos no Passo 6, da parábola do
julgamento das nações: os santos, ressuscitados e glorificados, compartilham o
governo com o Rei sobre essas nações remanescentes da grande guerra:
E ao que vencer, e guardar as minhas obras até ao fim,
lhe darei autoridade sobre as nações, e com vara de ferro as regerá; como vasos
de oleiro serão despedaçadas; como também eu recebi de meu Pai. (Apocalipse 2:26-27)
Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? E, se
o mundo há de ser julgado por vós, sois porventura indignos de julgardes as
coisas mínimas? (1 Coríntios 6:2)
Paulo, ao escrever isso aos coríntios décadas antes de Apocalipse ser
escrito, trata essa verdade como algo já conhecido e assumido pela igreja
primitiva — mais uma evidência de que essa expectativa de reinado terreno
compartilhado sempre esteve presente na fé apostólica, e não é uma inovação
tardia.
A universalidade dessa instrução moral vinda de Jerusalém é confirmada
por dois outros profetas que descrevem, com imagens quase idênticas, nações
literais subindo ao monte do templo físico para aprender a lei do SENHOR:
E acontecerá, nos últimos dias, que se firmará o monte da
Casa do SENHOR, no cume dos montes, e se elevará por cima dos outeiros; e
concorrerão a ele todas as nações. E irão muitos povos, e dirão: Vinde, e
subamos ao monte do SENHOR, à casa do Deus de Jacó, para que nos ensine os seus
caminhos, e andemos nas suas veredas; porque de Sião sairá a lei, e de
Jerusalém a palavra do SENHOR. E julgará entre as nações, e repreenderá a
muitos povos; e converterão as suas espadas em relhas de arado, e as suas lanças
em foices; não levantará espada nação contra nação, nem aprenderão mais a
guerra. (Isaías 2:2-4)
Espadas transformadas em relhas de arado, o fim do aprendizado da guerra,
nações subindo fisicamente a um monte específico: essa é, sem qualquer
ambiguidade, uma descrição de transformação social e política concreta,
exercida sobre uma humanidade ainda organizada em nações distintas, sob um
governo terreno centralizado em Jerusalém — exatamente o Milênio, e não um
evento celestial nem o estado eterno final.
PASSO 8 — A soltura final: Gogue e Magogue
Por que mesmo mil anos de governo justo não
erradicam a rebelião
Ao final dos mil anos, o texto de Apocalipse retoma a narrativa que havia
interrompido em 20:3, e descreve a soltura temporária de HaSatan, exatamente
como já fora anunciado:
Ora, quando os mil anos se acabarem, Satanás será solto
da sua prisão, E sairá a enganar as nações que estão sobre os quatro cantos da
terra, Gogue e Magogue, cujo número é como a areia do mar, a fim de as ajuntar
para a batalha. E subiram sobre a largura da terra, e cercaram o arraial dos
santos e a cidade amada; mas desceu fogo do céu, da parte de Deus, e os
devorou. (Apocalipse 20:7-9)
Este texto é teologicamente decisivo, porque impede qualquer leitura do
Milênio como um estado de perfeição já irrevogável, ou como um período
puramente celestial isento de toda possibilidade de rebelião. Mesmo depois de
mil anos inteiros de governo direto, visível e justo do próprio Messias,
reinando fisicamente a partir de Jerusalém, ainda existem, entre a população
nascida durante esse período — gerações inteiras que não passaram pela cruz,
nem pelo juízo direto das nações no início do Milênio —, corações humanos
capazes de se rebelar assim que a restrição externa é temporariamente suspensa.
Isso demonstra algo pastoralmente importante: a justiça do período milenar é
primariamente imposta pelo governo externo do Rei — "regerá as nações com
vara de ferro", como já vimos — e não ainda operada de forma completa e
irreversível no coração de cada ser humano nascido nesse ínterim. Essa obra
final e completa, a transformação interior definitiva, só se completa depois,
na nova criação.
PASSO 9 — O Grande Trono Branco: a segunda ressurreição
Os livros são abertos
Consumida essa última rebelião pelo fogo descido do céu, chegamos ao
evento que separa definitivamente os que têm parte na primeira ressurreição —
descrita anteriormente em Apocalipse 20:4-6 como reservada aos que reinam com o
Messias durante o Milênio — daqueles que só agora, mil anos depois, são
ressuscitados para enfrentar o julgamento final:
Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira
ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes
de Deus e de Cristo, e reinarão com ele mil anos. (Apocalipse 20:6)
Paulo já havia descrito esse mesmo evento, décadas antes, associando a
essa primeira ressurreição também a transformação instantânea dos santos que
ainda estiverem vivos no momento da vinda do Messias:
Eis aqui vos digo um mistério: Na verdade, nem todos
dormiremos, mas todos seremos transformados; Num momento, num abrir e fechar de
olhos, ante a última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos serão
ressuscitados incorruptíveis, e nós seremos transformados. (1 Coríntios 15:51-52)
Somente depois de concluídos os mil anos, e depois de consumida a última
rebelião de Gogue e Magogue, é que a Escritura descreve a cena do julgamento
final — o Grande Trono Branco, reservado àqueles que não fazem parte da
primeira ressurreição:
E vi um grande trono branco, e o que estava assentado
sobre ele, de cuja presença fugiu a terra e o céu; e não se achou lugar para
eles. E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante de Deus, e
abriram-se os livros; e abriu-se outro livro, que é o livro da vida; e os
mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as
suas obras. E deu o mar os mortos que nele havia; e a morte e o inferno deram
os mortos que neles havia; e foram julgados, cada um segundo as suas obras. (Apocalipse 20:11-13)
Observe a distinção precisa que o próprio texto estabelece entre dois
tipos de registro: "os livros", no plural, que contêm o registro das
obras de cada pessoa; e "o livro", no singular, o livro da vida, que
é consultado nesse julgamento final para verificar se o nome de cada um ali
está escrito. Esta cena é, tecnicamente, a segunda ressurreição — descrita pelo
próprio Yeshua como "ressurreição de condenação":
Não vos maravilheis disso; porque vem a hora em que todos
os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz. E os que fizeram o bem sairão
para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da
condenação. (João 5:28-29)
A existência dessas duas ressurreições distintas — a primeira, reservada
aos santos, ocorrendo antes do Milênio, e a segunda, de julgamento, ocorrendo
mil anos depois — refuta categoricamente qualquer esquema teológico que ensine
uma ressurreição geral única e simultânea de todos os mortos, justos e injustos
ao mesmo tempo. A Escritura descreve, com o intervalo explícito de mil anos
entre uma e outra, duas ressurreições distintas em tempo, propósito e destino
final.
PASSO 10 — A Nova Jerusalém desce: o fim da morte
O tabernáculo de Deus finalmente entre os
homens
Chegamos, enfim, ao ponto culminante de toda essa cronologia — e é
notável, e teologicamente decisivo, que o movimento final da Escritura seja
idêntico ao movimento que observamos na pedra de Daniel 2: não a humanidade
subindo aos céus, mas o céu descendo definitivamente à terra.
E vi um novo céu e uma nova terra. Porque já o primeiro
céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. E eu, João, vi a santa
cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa
ataviada para o seu marido. E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o
tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu
povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus. (Apocalipse 21:1-3)
A cidade desce — o verbo é explícito, katabainousan, "que
descia". Este é o ponto final de uma trajetória que começou no Éden, onde
Deus caminhava com o homem no jardim (Gênesis 3:8), passou pelo tabernáculo no
deserto, depois pelo Templo em Jerusalém, depois pela encarnação do próprio
Yeshua ("o Verbo se fez carne, e habitou entre nós", João 1:14),
depois pelo governo visível do Messias durante o Milênio, e culmina agora nesta
habitação final, permanente e sem véu algum entre Deus e o homem. É por isso
que, nessa cidade final, não há mais necessidade de um templo separado, porque
a própria presença de Deus preenche todo o espaço:
E nela não vi templo, porque o Senhor Deus Todo-Poderoso
é o seu templo, e também o Cordeiro.
(Apocalipse 21:22)
E é precisamente nesse ponto, e não antes, que o último inimigo
mencionado por Paulo é finalmente derrotado por completo:
Ora, o último inimigo, que há de ser aniquilado, é a
morte. (1 Coríntios 15:26)
E a morte e o inferno foram lançados no lago de fogo.
Esta é a segunda morte.
(Apocalipse 20:14)
E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá
mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são
passadas. (Apocalipse 21:4)
Síntese cronológica final
Reunindo tudo o que percorremos, o quadro profético completo, na ordem em
que a própria Escritura o descreve, é este:
1. A Aliança Abraâmica — a promessa original da terra, nunca
substituída por uma promessa celestial.
2. A Aliança Davídica — a promessa de um trono terreno, em
Jerusalém, ocupado para sempre pela descendência de Davi.
3. Os impérios humanos e a pedra de Daniel — o panorama de toda a
história até a substituição final e terrena desses impérios pelo Reino de Deus.
4. As setenta semanas de Daniel — o relógio profético, já
integralmente cumprido no primeiro século, culminando na morte do Messias e na
extensão apostólica da aliança.
5. A era da igreja — o campo onde trigo e joio crescem juntos, sem separação prévia, até a mesma ceifa final.
6. A vinda visível do Messias — a descida física e militar
descrita em Apocalipse 19, com a prisão de HaSatan logo em seguida.
7. O Milênio — mil anos de reinado terreno e visível de Yeshua, a
partir de Jerusalém, no trono de Davi finalmente ocupado, com os santos
governando as nações remanescentes ao lado dEle.
8. A soltura final e Gogue e Magogue — a última prova de que a
rebelião humana só é definitivamente extinta na nova criação, não meramente
pela passagem do tempo.
9. O Grande Trono Branco — a segunda ressurreição, mil anos
depois da primeira, com a abertura dos livros e o julgamento segundo as obras.
10. A Nova Jerusalém — o céu descendo definitivamente à terra, o
tabernáculo de Deus habitando para sempre entre os homens, e a morte, o último
inimigo, finalmente aniquilada.
Do
princípio ao fim, o movimento da Escritura nunca é ascendente — nunca é o homem
subindo aos céus para ali permanecer. É sempre descendente: Deus descendo ao
jardim, descendo ao tabernáculo, descendo em carne no Messias, descendo
visivelmente para reinar mil anos a partir de Jerusalém, e descendo, por fim,
definitivamente, na Nova Jerusalém. Os céus são os céus do SENHOR; mas a terra,
Ele a deu aos filhos dos homens — e é na terra, através do trono de Davi, nas
mãos daquele que é a pedra cortada sem auxílio de mãos, que Ele virá
reclamá-la.