Por Que Não Celebramos o Natal
Estudo Bíblico

Por Que Não Celebramos o Natal
Cronologia bíblica do nascimento de
Yeshua, e as raízes pagãs da festa de 25 de dezembro
Este estudo trata de duas questões distintas, mas relacionadas. A
primeira é cronológica: o que a própria Escritura nos permite calcular sobre a
época do nascimento de Yeshua, a partir do anúncio a Zacarias e do sistema de
turnos sacerdotais estabelecido na Torá — um cálculo que, por vias diferentes,
sempre aponta para longe de dezembro. A segunda é histórica: de onde realmente
vem a data de 25 de dezembro, e por que a Escritura nos adverte, em termos
muito diretos, contra a adoção de costumes religiosos das nações pagãs, mesmo
quando revestidos de boa intenção. Nosso objetivo não é polemizar por
polemizar, mas entender, com cuidado exegético e histórico, por que a
congregação escolhe não celebrar essa data.
PASSO 1 — O anúncio a Zacarias e a ordem de Abias
Lucas 1: um sacerdote, um turno, uma data
calculável
A narrativa do nascimento de Yeshua, tal como registrada por Lucas, não
começa com Yeshua — começa seis meses antes, com o anúncio do nascimento de
Yochanan (João Batista) a seu pai, o sacerdote Zacarias. E Lucas, com o cuidado
característico de um historiador, não deixa esse anúncio no vácuo cronológico:
ele o situa precisamente dentro do sistema de turnos sacerdotais estabelecido
desde os dias do rei Davi.
Houve, nos dias de Herodes, rei da Judeia, um sacerdote
chamado Zacarias, da ordem de Abias, e cuja mulher era das filhas de Arão; e
chamava-se Isabel. (Lucas 1:5)
Este detalhe aparentemente pequeno — "da ordem de Abias" — é,
na verdade, a chave que nos permite fazer o cálculo cronológico de toda a
narrativa. Séculos antes, o rei Davi havia organizado o sacerdócio levítico em
vinte e quatro turnos rotativos, cada um responsável pelo serviço no Templo
durante uma semana, duas vezes ao ano, numa ordem fixa e sorteada uma única
vez, que se repetia perpetuamente:
E a primeira sorte saiu a Jeoiaribe... a oitava a
Abias... Estas foram as suas ordens de serviço, para entrarem na casa do
SENHOR, segundo o seu costume, debaixo da direção de Arão, seu pai, como o
SENHOR Deus de Israel lhe tinha ordenado. (1 Crônicas 24:7,10,19)
Abias é, portanto, o oitavo entre os vinte e quatro turnos. Estudiosos
que se dedicaram a reconstruir o calendário exato desses turnos — entre eles o
professor Shemarjahu Talmon, da Universidade Hebraica de Jerusalém, trabalhando
com textos do calendário sacerdotal encontrados entre os manuscritos de Qumran
— chegaram a datas aproximadas para quando o turno de Abias efetivamente servia
no Templo ao longo do ano civil. Existem, é verdade, pequenas variações entre
os estudiosos sobre o mês exato — alguns apontam para o período correspondente
a julho (o quarto mês do calendário religioso, Tamuz), outros para setembro (o
sexto turno anual, considerando as duas rodadas completas dos vinte e quatro
turnos ao longo do ano) — mas todas as reconstruções sérias convergem num ponto
que é o que realmente importa para este estudo: nenhuma delas aponta para o
inverno do hemisfério norte, e muito menos para o mês de dezembro.
É importante notar, com honestidade acadêmica,
que a reconstrução exata do calendário dos vinte e quatro turnos sacerdotais é
objeto de debate entre estudiosos, e que o ano judaico, sendo lunar com ajustes
intercalares, não mapeia perfeitamente sobre o calendário solar gregoriano. O
argumento deste estudo não depende de se fixar um mês exato, mas do fato mais
simples e mais seguro: nenhuma reconstrução conhecida do turno de Abias recai
em dezembro.
PASSO 2 — Da concepção de Yochanan à concepção de Yeshua
Seis meses de diferença, e o caminho até
Belém
Tomando como base a reconstrução mais citada entre estudiosos messiânicos
— que situa o turno de Abias no quarto mês do calendário religioso, Tamuz,
correspondente a junho/julho —, o texto de Lucas permite seguir o cálculo passo
a passo. Terminado seu período de serviço no Templo, Zacarias retorna para
casa, e é ali que Elisheva (Isabel), sua mulher, concebe:
E, terminados os dias do seu ministério, voltou para sua
casa. E, depois daqueles dias, Isabel, sua mulher, concebeu, e por cinco meses
se ocultou, dizendo: (Lucas 1:23-24)
Se a concepção de Yochanan ocorre, portanto, por volta de Tamuz
(junho/julho), o texto avança exatamente seis meses até o anúncio do anjo
Gabriel a Miriam sobre a concepção de Yeshua — o próprio Lucas fornece esse
intervalo com precisão:
E, no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por Deus a
uma cidade da Galileia, chamada Nazaré,
(Lucas 1:26)
O quadro a seguir resume visualmente essa cronologia completa, sobrepondo
os meses do calendário judaico ao ciclo de concepções e nascimentos:

Calendário circular dos meses judaicos, sobrepondo o turno de Abias (4º mês, Tamuz) à concepção de Yochanan, à concepção de Yeshua seis meses depois, e aos respectivos nascimentos.
Seis meses depois de Tamuz, a concepção de Yeshua ocorre por volta do
primeiro mês do ano religioso, Nissan — a época de Pessach, o que carrega um
peso teológico e simbólico considerável, já explorado em outro estudo desta
congregação sobre a identificação de Yeshua como o Cordeiro pascal. Contando
nove meses de gestação a partir dessa concepção em Nissan, o nascimento de
Yeshua recai por volta do sétimo mês do calendário religioso — Etanim, também
chamado Tishrei —, exatamente o mês da festa de Sucot (Tabernáculos). Yochanan,
por sua vez, concebido em Tamuz, nasce nove meses depois, por volta do primeiro
mês, Nissan — o mês de Pessach.
Esse detalhe, aliás, tem ressonância teológica poderosa: a festa de Sucot
celebra Deus "tabernaculando", habitando temporariamente entre o Seu
povo — e o próprio Yochanan, o apóstolo, descreve o nascimento de Yeshua usando
exatamente essa imagem, a de um tabernáculo montado entre os homens:
E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a
sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. (João 1:14)
A palavra grega traduzida por "habitou", eskēnōsen, deriva
diretamente da palavra para "tabernáculo", skēnē — João está dizendo,
literalmente, que o Verbo "tabernaculou" entre nós, uma escolha
vocabular dificilmente casual, que aponta muito mais naturalmente para um
nascimento próximo à festa de Sucot do que para qualquer data no coração do
inverno europeu.
Há ainda um detalhe prático, frequentemente citado, que reforça a
dificuldade de um nascimento em dezembro: a presença de pastores vigiando seus
rebanhos ao relento, durante a noite, no momento do nascimento:
Ora, havia naquela mesma comarca pastores que estavam no
campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho. (Lucas 2:8)
O clima de inverno em Belém, região montanhosa da Judeia, é notoriamente
frio, com geadas noturnas frequentes — condição pouco compatível com rebanhos
mantidos ao relento durante a noite, uma prática documentada como mais
associada à época mais quente do ano, entre a primavera e o outono. Nenhum
desses argumentos, isoladamente, constitui prova irrefutável — mas, somados,
formam um quadro consistente: tudo na cronologia bíblica aponta para longe de
dezembro, e nada na Escritura aponta especificamente para essa data.
PASSO 3 — Não eram três, nem eram reis
Mateus 2: o que o texto realmente diz sobre
os magos
Um segundo conjunto de tradições populares associadas ao Natal também não
resiste ao exame direto do texto bíblico: a imagem consolidada de "três
reis magos", tão presente no imaginário popular, nos presépios e nas
canções natalinas. O único relato bíblico sobre esses visitantes está em Mateus
2, e vale a pena ler o texto com atenção ao que ele diz — e ao que não diz:
E, tendo nascido Jesus em Belém de Judeia, no tempo do
rei Herodes, eis que uns magos vieram do Oriente a Jerusalém, dizendo: Onde
está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no
Oriente, e viemos a adorá-lo. (Mateus
2:1-2)
A palavra grega usada aqui, magoi, não significa "reis" —
designa uma classe de sábios, estudiosos e observadores dos astros, associados
sobretudo à Pérsia, à Babilônia ou à Média, regiões onde, aliás, havia
comunidades judaicas remanescentes do exílio babilônico, o que pode explicar
seu conhecimento das profecias messiânicas relacionadas a uma estrela (Números
24:17). Em nenhum momento do texto eles são chamados de reis, nem o número
deles é especificado. O texto simplesmente os menciona no plural — "uns magos",
"mais de um" é tudo o que se pode afirmar com segurança textual.
A tradição popular de que eram exatamente três surgiu séculos depois, e
sua origem é facilmente rastreável: não vem do número de visitantes mencionado
no texto, mas do número de presentes que Mateus registra terem sido oferecidos
ao menino:
E, entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe,
e, prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, lhe ofertaram
dádivas: ouro, incenso e mirra. (Mateus
2:11)
Três presentes — não três pessoas. A associação entre os magos e a
realeza também não vem do texto de Mateus, mas de uma leitura posterior que
conectou essa visita a textos proféticos do Antigo Testamento que falam de reis
das nações trazendo presentes ao Messias, como Salmos 72:10-11 e Isaías 60:3,
textos que descrevem, na verdade, um cenário escatológico mais amplo, não
especificamente essa visita histórica. A tradição de que eram reis remonta,
segundo estudiosos, ao teólogo Tertuliano, no início do século terceiro — mais
de cem anos depois do evento narrado — e os próprios nomes tradicionais,
Melchior, Gaspar e Baltasar, aparecem apenas em textos posteriores, sem
qualquer base no texto canônico.
Há ainda outro detalhe que a iconografia tradicional do presépio costuma
ignorar: o texto de Mateus não situa a visita dos magos na noite do nascimento,
na manjedoura, mas bem depois, numa casa, quando Yeshua já era chamado de
"menino" (paidion), não mais recém-nascido (brephos, palavra usada
por Lucas para a cena da manjedoura). O próprio comportamento de Herodes,
ordenando a morte de todas as crianças "de dois anos para baixo"
(Mateus 2:16), sugere que os magos podem ter chegado até dois anos depois do nascimento
— mais um detalhe que desfaz a imagem tradicional, tão consolidada
culturalmente, de magos ajoelhados ao lado dos pastores na noite do nascimento.
PASSO 4 — De onde vem, então, o dia 25 de dezembro
Solstício de inverno, Saturnália e o culto
ao Sol Invicto
Se a Escritura não aponta para dezembro, de onde vem, então, essa data
específica, tão fortemente associada ao Natal em todo o mundo ocidental? A
resposta exige um pouco de história romana, e é importante apresentá-la com
honestidade — inclusive reconhecendo que há debate acadêmico legítimo sobre a
cronologia exata dos eventos, mas o quadro geral é bem documentado.
O solstício de inverno no hemisfério norte, por volta de 21 a 25 de
dezembro no calendário juliano usado por Roma, marcava, para praticamente todas
as culturas agrárias e pagãs da Antiguidade, o ponto mais baixo da luz solar no
ano — a partir do qual os dias voltavam a se alongar. Esse momento astronômico
era carregado de significado religioso profundo nas religiões pagãs do
Mediterrâneo e do Oriente Próximo, celebrado como o "renascimento"
simbólico do sol depois de sua morte aparente durante o período mais escuro do
ano.
Em Roma, esse período coincidia com a Saturnália, uma das festas mais
populares do calendário romano, dedicada ao deus Saturno, celebrada
tradicionalmente entre 17 e 23 de dezembro, marcada por banquetes, inversão
temporária das hierarquias sociais, trocas de presentes e decoração das casas
com vegetação perene — muitos desses elementos culturais específicos
permaneceram, de forma adaptada, nas celebrações natalinas posteriores, ainda
que os historiadores debatam o grau exato de conexão direta entre as duas
festas.
Paralelamente, e de forma mais diretamente ligada à data de 25 de
dezembro especificamente, havia o culto ao Sol Invictus ("Sol
Invencível"), promovido de forma especialmente vigorosa pelo imperador
romano Aureliano, que no ano 274 d.C. instituiu formalmente o dies natalis
Solis Invicti — literalmente, "o dia do nascimento do Sol Invencível"
— como festa oficial do império, unificando diversos cultos solares
preexistentes (incluindo elementos do culto persa a Mitra, extremamente popular
entre os soldados romanos) numa única celebração solar centralizada, situada
exatamente no solstício de inverno.
É importante, com honestidade histórica, reconhecer que a datação exata
da primeira celebração cristã do nascimento de Yeshua em 25 de dezembro, e sua
relação cronológica precisa com o culto ao Sol Invictus, é objeto de debate
entre historiadores: o registro documental mais antigo e seguro de ambas as
celebrações associadas a essa data — tanto a pagã quanto a cristã — vem do
mesmo documento, o chamado Cronógrafo (ou Calendário Filocaliano) do ano 354
d.C., o que torna a questão de "quem copiou de quem" historicamente
mais complexa do que costuma ser popularmente apresentada. O que permanece
incontestável, e é o ponto relevante para este estudo, é o seguinte: a data de
25 de dezembro tinha, muito antes e independentemente de qualquer celebração
cristã, um peso religioso pagão profundo e generalizado em todo o mundo romano,
ligado ao culto solar e ao solstício de inverno — e nada na cronologia bíblica,
como vimos no Passo 2, aponta para essa mesma data como sendo a do nascimento
real de Yeshua.
A honestidade histórica exige reconhecer esse
debate acadêmico sobre a precedência exata das datas. Mas o argumento central
deste estudo não depende de resolver essa disputa histórica: mesmo que a Igreja
do século IV tenha escolhido essa data por razões teológicas simbólicas
(associar o "nascimento da luz verdadeira" ao ponto do ano em que a
luz solar recomeça a crescer), a data continua sendo estranha à cronologia
bíblica real, e sua celebração continua carregando, historicamente, associações
solares e pagãs profundamente arraigadas na cultura ocidental até os dias de
hoje — desde a árvore decorada até a grinalda, símbolos que remontam a esses
mesmos cultos de vegetação perene e solstício.
PASSO 5 — O aviso da Torá contra os costumes das nações
Jeremias 10: "não aprendais o caminho
das nações"
A Escritura não é omissa quanto a este tipo específico de sincretismo — a
adoção, por parte do povo de Deus, de símbolos e costumes originalmente pagãos,
mesmo quando reinterpretados com uma nova intenção religiosa. O texto mais
diretamente relevante para essa discussão é surpreendente em sua precisão de
detalhes, e vale a pena ser lido com atenção total:
Assim diz o SENHOR: Não aprendais o caminho das nações,
nem vos espanteis dos sinais dos céus; porque com eles se atemorizam as nações.
Porque os estatutos dos povos são vaidade; pois corta-se do bosque um madeiro,
obra das mãos do artífice, com machado. Com prata e com ouro o enfeitam, com
pregos e com martelos o firmam, para que não se mova. (Jeremias 10:2-4)
Uma árvore cortada da floresta, decorada com prata e ouro, firmada com
pregos para que não se mova — é impossível não notar a semelhança
impressionante entre essa descrição, escrita mais de seiscentos anos antes de
Yeshua, num contexto totalmente diferente (o profeta denuncia especificamente
os ídolos de madeira entalhada da Babilônia), e a imagem cultural hoje
universalmente associada ao Natal: uma árvore cortada, trazida para dentro de
casa, decorada com ornamentos dourados e prateados, e fixada numa base para que
não caia. É importante, com honestidade exegética, reconhecer que Jeremias não
está profetizando sobre árvores de Natal — ele está denunciando a fabricação de
ídolos de madeira revestidos de metais preciosos, uma prática idólatra
específica da sua própria época. Mas o princípio espiritual subjacente ao texto
— a advertência categórica contra aprender e adotar "o caminho das
nações" em matéria de prática religiosa — permanece plenamente válido e
diretamente aplicável, independentemente da coincidência descritiva.
O restante do capítulo reforça esse mesmo princípio, contrastando a
vaidade dos costumes religiosos copiados das nações com o único Deus
verdadeiro:
São como espantalho no pepinal, e não podem falar;
necessitam de ser levados aos ombros, porquanto não podem andar; não tenhais
temor deles, pois não podem fazer o mal, nem tampouco têm poder de fazer o bem. (Jeremias 10:5)
O padrão bíblico de Deus quanto à adoração é consistentemente o oposto de
"tomar emprestado" símbolos e datas das religiões vizinhas e
simplesmente redirecioná-los a Si mesmo. Quando Israel tenta fazer exatamente
isso — misturar a adoração ao SENHOR com formas e costumes das nações ao redor
—, a resposta profética é sempre de correção severa, nunca de aprovação por
causa da "boa intenção" por trás da mistura. O caso mais emblemático
de todo o Tanakh é o bezerro de ouro, onde Arão, ao ceder à pressão do povo,
tenta precisamente essa fusão sincrética — usar uma imagem de culto egípcio
familiar ao povo, mas declarando que a festa era "ao SENHOR":
E ele os tomou das suas mãos, e fê-lo em forma com um
buril, e fez dele um bezerro de fundição; então, disseram: Este é o teu deus, ó
Israel, que te tirou da terra do Egito. E Arão, vendo isto, edificou um altar
diante dele; e apregoou Arão, e disse: Amanhã será festa ao SENHOR. (Êxodo 32:4-5)
Note a estrutura precisa: a imagem é pagã em sua origem, mas a intenção
declarada por Arão é sincera — "festa ao SENHOR", não a um deus
estrangeiro nomeado. E, ainda assim, a resposta de Deus é de ira e juízo severo
(Êxodo 32:7-10), não de aceitação complacente da boa intenção por trás do
símbolo emprestado. Este padrão bíblico é a base teológica mais sólida para a
cautela desta congregação quanto à adoção de qualquer prática cuja origem
histórica seja identificavelmente pagã, mesmo quando reinterpretada com
sinceridade em direção a Yeshua.
PASSO 6 — O perigo espiritual por trás do símbolo
Paulo em Corinto: comunhão com demônios
através do que parece neutro
Alguém poderia objetar, nesse ponto, que símbolos são apenas símbolos, e
que sua origem histórica não determina necessariamente seu significado
espiritual presente — afinal, uma árvore ou uma data em si não têm poder algum.
É precisamente esse raciocínio que Paulo aborda diretamente, no mesmo capítulo
já examinado em outro estudo desta congregação sobre alimentos sacrificados a
ídolos, e vale a pena revisitar seu argumento aqui, porque ele trata exatamente
da questão espiritual subjacente à prática ritual de origem pagã:
Que digo, pois? Que o ídolo é alguma coisa? Ou que o
sacrifício da carne aos ídolos é alguma coisa? Antes digo que as coisas que os
gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E não quereria
que vós entrásseis em comunhão com os demônios. Não podeis beber o cálice do
Senhor, e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do
Senhor, e da mesa dos demônios. (1
Coríntios 10:19-21)
O argumento de Paulo é sutil e importante: ele não afirma que o ídolo de
pedra ou madeira, em si mesmo, tem algum poder real — "o ídolo é alguma
coisa?", pergunta ele retoricamente, esperando a resposta óbvia de que
não. Mas ele afirma, com a mesma clareza, que por trás desses rituais e
símbolos religiosos pagãos, historicamente instituídos para a adoração de
divindades falsas, existe uma realidade espiritual demoníaca genuína, e que
participar desses rituais — mesmo sem crer pessoalmente no poder do ídolo —
constitui, ainda assim, um ato de comunhão espiritual com essa realidade
demoníaca subjacente. É esse princípio, e não uma crença mágica em objetos
amaldiçoados, que fundamenta a cautela quanto à adoção de datas e símbolos com
raízes claramente identificáveis em cultos solares pagãos como o Sol Invictus e
a Saturnália: a questão não é se a árvore decorada tem, ela mesma, algum poder
espiritual — é que ela carrega, historicamente, uma associação ritual com
sistemas de adoração dedicados a outras entidades espirituais, e a Escritura
nos adverte a não misturar essas duas fontes.
É importante ressaltar, com equilíbrio pastoral, que esta congregação não
ensina que cada família que celebra o Natal está, de forma consciente e
deliberada, adorando demônios — a esmagadora maioria das pessoas que celebram
essa data hoje o fazem com sinceridade voltada a Yeshua, sem qualquer
consciência das raízes históricas aqui expostas, exatamente como Arão, ao
erguer o bezerro de ouro, provavelmente também não tinha consciência plena da
gravidade sincretista do seu próprio ato. O ponto deste estudo não é julgar a
consciência individual de quem celebra, mas explicar, com base bíblica e
histórica sólida, por que esta congregação, tendo tomado conhecimento dessas
raízes, opta conscientemente por não adotar essa data e esses símbolos em sua
própria prática de adoração — preferindo, em vez disso, celebrar o nascimento
do Messias dentro do calendário e da linguagem que a própria Escritura nos
oferece, ancorados, como vimos no Passo 2, muito provavelmente na estação de
Sucot.
PASSO 7 — Síntese: a alternativa messiânica
Celebrar o nascimento sem adotar a data pagã
Nada neste estudo diminui a alegria genuína e central do nascimento do
Messias — pelo contrário, reconstruir a cronologia bíblica real, com seus
detalhes precisos de turnos sacerdotais, meses e festas, aprofunda a apreciação
da soberania divina sobre cada detalhe do nascimento. O que este estudo recusa
não é a celebração do nascimento de Yeshua, mas especificamente a data e os
símbolos historicamente associados a cultos solares pagãos, que a própria
Escritura nos adverte a não adotar mesmo com boas intenções.
A alternativa messiânica não é o silêncio sobre o nascimento, mas a
celebração dela dentro do próprio calendário bíblico — seja meditando sobre o nascimento
durante Sucot, à luz da conexão textual com João 1:14 já examinada, seja
simplesmente mantendo viva, ao longo do ano, a compreensão de que Yeshua, o
Verbo feito carne, tabernaculou entre nós, cumprindo, como demonstrado em outro
estudo desta congregação, a profecia de Miqueias sobre Belém e a promessa do
trono eterno de Davi — sem a necessidade de emprestar, para essa celebração,
uma data e um conjunto de símbolos que a história registra terem pertencido,
muito antes de qualquer conexão cristã, ao culto do sol vencendo as trevas do
inverno.
Não
recusamos o Natal por falta de amor ao nascimento do Messias — recusamos
precisamente por amor a Ele, e por reverência à advertência clara da Torá
contra misturar a adoração ao Deus vivo com os costumes das nações. Yeshua
nasceu; Deus tabernaculou entre nós; e essa verdade não precisa, e não deve,
tomar emprestada a data do nascimento do sol.