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BethLechem בית לחם Comunidade Judaico-Messiânica · Imbituba/SC

Por Que Não Celebramos o Natal

Estudo Bíblico

✍ George W. Santos 📅 14 de agosto de 2026

Por Que Não Celebramos o Natal

Cronologia bíblica do nascimento de Yeshua, e as raízes pagãs da festa de 25 de dezembro

Este estudo trata de duas questões distintas, mas relacionadas. A primeira é cronológica: o que a própria Escritura nos permite calcular sobre a época do nascimento de Yeshua, a partir do anúncio a Zacarias e do sistema de turnos sacerdotais estabelecido na Torá — um cálculo que, por vias diferentes, sempre aponta para longe de dezembro. A segunda é histórica: de onde realmente vem a data de 25 de dezembro, e por que a Escritura nos adverte, em termos muito diretos, contra a adoção de costumes religiosos das nações pagãs, mesmo quando revestidos de boa intenção. Nosso objetivo não é polemizar por polemizar, mas entender, com cuidado exegético e histórico, por que a congregação escolhe não celebrar essa data.

PASSO 1 — O anúncio a Zacarias e a ordem de Abias

Lucas 1: um sacerdote, um turno, uma data calculável

A narrativa do nascimento de Yeshua, tal como registrada por Lucas, não começa com Yeshua — começa seis meses antes, com o anúncio do nascimento de Yochanan (João Batista) a seu pai, o sacerdote Zacarias. E Lucas, com o cuidado característico de um historiador, não deixa esse anúncio no vácuo cronológico: ele o situa precisamente dentro do sistema de turnos sacerdotais estabelecido desde os dias do rei Davi.

Houve, nos dias de Herodes, rei da Judeia, um sacerdote chamado Zacarias, da ordem de Abias, e cuja mulher era das filhas de Arão; e chamava-se Isabel.  (Lucas 1:5)

Este detalhe aparentemente pequeno — "da ordem de Abias" — é, na verdade, a chave que nos permite fazer o cálculo cronológico de toda a narrativa. Séculos antes, o rei Davi havia organizado o sacerdócio levítico em vinte e quatro turnos rotativos, cada um responsável pelo serviço no Templo durante uma semana, duas vezes ao ano, numa ordem fixa e sorteada uma única vez, que se repetia perpetuamente:

E a primeira sorte saiu a Jeoiaribe... a oitava a Abias... Estas foram as suas ordens de serviço, para entrarem na casa do SENHOR, segundo o seu costume, debaixo da direção de Arão, seu pai, como o SENHOR Deus de Israel lhe tinha ordenado.  (1 Crônicas 24:7,10,19)

Abias é, portanto, o oitavo entre os vinte e quatro turnos. Estudiosos que se dedicaram a reconstruir o calendário exato desses turnos — entre eles o professor Shemarjahu Talmon, da Universidade Hebraica de Jerusalém, trabalhando com textos do calendário sacerdotal encontrados entre os manuscritos de Qumran — chegaram a datas aproximadas para quando o turno de Abias efetivamente servia no Templo ao longo do ano civil. Existem, é verdade, pequenas variações entre os estudiosos sobre o mês exato — alguns apontam para o período correspondente a julho (o quarto mês do calendário religioso, Tamuz), outros para setembro (o sexto turno anual, considerando as duas rodadas completas dos vinte e quatro turnos ao longo do ano) — mas todas as reconstruções sérias convergem num ponto que é o que realmente importa para este estudo: nenhuma delas aponta para o inverno do hemisfério norte, e muito menos para o mês de dezembro.

É importante notar, com honestidade acadêmica, que a reconstrução exata do calendário dos vinte e quatro turnos sacerdotais é objeto de debate entre estudiosos, e que o ano judaico, sendo lunar com ajustes intercalares, não mapeia perfeitamente sobre o calendário solar gregoriano. O argumento deste estudo não depende de se fixar um mês exato, mas do fato mais simples e mais seguro: nenhuma reconstrução conhecida do turno de Abias recai em dezembro.

PASSO 2 — Da concepção de Yochanan à concepção de Yeshua

Seis meses de diferença, e o caminho até Belém

Tomando como base a reconstrução mais citada entre estudiosos messiânicos — que situa o turno de Abias no quarto mês do calendário religioso, Tamuz, correspondente a junho/julho —, o texto de Lucas permite seguir o cálculo passo a passo. Terminado seu período de serviço no Templo, Zacarias retorna para casa, e é ali que Elisheva (Isabel), sua mulher, concebe:

E, terminados os dias do seu ministério, voltou para sua casa. E, depois daqueles dias, Isabel, sua mulher, concebeu, e por cinco meses se ocultou, dizendo:  (Lucas 1:23-24)

Se a concepção de Yochanan ocorre, portanto, por volta de Tamuz (junho/julho), o texto avança exatamente seis meses até o anúncio do anjo Gabriel a Miriam sobre a concepção de Yeshua — o próprio Lucas fornece esse intervalo com precisão:

E, no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré,  (Lucas 1:26)

O quadro a seguir resume visualmente essa cronologia completa, sobrepondo os meses do calendário judaico ao ciclo de concepções e nascimentos:

Calendário circular dos meses judaicos, sobrepondo o turno de Abias (4º mês, Tamuz) à concepção de Yochanan, à concepção de Yeshua seis meses depois, e aos respectivos nascimentos.

Seis meses depois de Tamuz, a concepção de Yeshua ocorre por volta do primeiro mês do ano religioso, Nissan — a época de Pessach, o que carrega um peso teológico e simbólico considerável, já explorado em outro estudo desta congregação sobre a identificação de Yeshua como o Cordeiro pascal. Contando nove meses de gestação a partir dessa concepção em Nissan, o nascimento de Yeshua recai por volta do sétimo mês do calendário religioso — Etanim, também chamado Tishrei —, exatamente o mês da festa de Sucot (Tabernáculos). Yochanan, por sua vez, concebido em Tamuz, nasce nove meses depois, por volta do primeiro mês, Nissan — o mês de Pessach.

Esse detalhe, aliás, tem ressonância teológica poderosa: a festa de Sucot celebra Deus "tabernaculando", habitando temporariamente entre o Seu povo — e o próprio Yochanan, o apóstolo, descreve o nascimento de Yeshua usando exatamente essa imagem, a de um tabernáculo montado entre os homens:

E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.  (João 1:14)

A palavra grega traduzida por "habitou", eskēnōsen, deriva diretamente da palavra para "tabernáculo", skēnē — João está dizendo, literalmente, que o Verbo "tabernaculou" entre nós, uma escolha vocabular dificilmente casual, que aponta muito mais naturalmente para um nascimento próximo à festa de Sucot do que para qualquer data no coração do inverno europeu.

Há ainda um detalhe prático, frequentemente citado, que reforça a dificuldade de um nascimento em dezembro: a presença de pastores vigiando seus rebanhos ao relento, durante a noite, no momento do nascimento:

Ora, havia naquela mesma comarca pastores que estavam no campo, e guardavam, durante as vigílias da noite, o seu rebanho.  (Lucas 2:8)

O clima de inverno em Belém, região montanhosa da Judeia, é notoriamente frio, com geadas noturnas frequentes — condição pouco compatível com rebanhos mantidos ao relento durante a noite, uma prática documentada como mais associada à época mais quente do ano, entre a primavera e o outono. Nenhum desses argumentos, isoladamente, constitui prova irrefutável — mas, somados, formam um quadro consistente: tudo na cronologia bíblica aponta para longe de dezembro, e nada na Escritura aponta especificamente para essa data.

PASSO 3 — Não eram três, nem eram reis

Mateus 2: o que o texto realmente diz sobre os magos

Um segundo conjunto de tradições populares associadas ao Natal também não resiste ao exame direto do texto bíblico: a imagem consolidada de "três reis magos", tão presente no imaginário popular, nos presépios e nas canções natalinas. O único relato bíblico sobre esses visitantes está em Mateus 2, e vale a pena ler o texto com atenção ao que ele diz — e ao que não diz:

E, tendo nascido Jesus em Belém de Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que uns magos vieram do Oriente a Jerusalém, dizendo: Onde está aquele que é nascido rei dos judeus? porque vimos a sua estrela no Oriente, e viemos a adorá-lo.  (Mateus 2:1-2)

A palavra grega usada aqui, magoi, não significa "reis" — designa uma classe de sábios, estudiosos e observadores dos astros, associados sobretudo à Pérsia, à Babilônia ou à Média, regiões onde, aliás, havia comunidades judaicas remanescentes do exílio babilônico, o que pode explicar seu conhecimento das profecias messiânicas relacionadas a uma estrela (Números 24:17). Em nenhum momento do texto eles são chamados de reis, nem o número deles é especificado. O texto simplesmente os menciona no plural — "uns magos", "mais de um" é tudo o que se pode afirmar com segurança textual.

A tradição popular de que eram exatamente três surgiu séculos depois, e sua origem é facilmente rastreável: não vem do número de visitantes mencionado no texto, mas do número de presentes que Mateus registra terem sido oferecidos ao menino:

E, entrando na casa, acharam o menino com Maria, sua mãe, e, prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, lhe ofertaram dádivas: ouro, incenso e mirra.  (Mateus 2:11)

Três presentes — não três pessoas. A associação entre os magos e a realeza também não vem do texto de Mateus, mas de uma leitura posterior que conectou essa visita a textos proféticos do Antigo Testamento que falam de reis das nações trazendo presentes ao Messias, como Salmos 72:10-11 e Isaías 60:3, textos que descrevem, na verdade, um cenário escatológico mais amplo, não especificamente essa visita histórica. A tradição de que eram reis remonta, segundo estudiosos, ao teólogo Tertuliano, no início do século terceiro — mais de cem anos depois do evento narrado — e os próprios nomes tradicionais, Melchior, Gaspar e Baltasar, aparecem apenas em textos posteriores, sem qualquer base no texto canônico.

Há ainda outro detalhe que a iconografia tradicional do presépio costuma ignorar: o texto de Mateus não situa a visita dos magos na noite do nascimento, na manjedoura, mas bem depois, numa casa, quando Yeshua já era chamado de "menino" (paidion), não mais recém-nascido (brephos, palavra usada por Lucas para a cena da manjedoura). O próprio comportamento de Herodes, ordenando a morte de todas as crianças "de dois anos para baixo" (Mateus 2:16), sugere que os magos podem ter chegado até dois anos depois do nascimento — mais um detalhe que desfaz a imagem tradicional, tão consolidada culturalmente, de magos ajoelhados ao lado dos pastores na noite do nascimento.

PASSO 4 — De onde vem, então, o dia 25 de dezembro

Solstício de inverno, Saturnália e o culto ao Sol Invicto

Se a Escritura não aponta para dezembro, de onde vem, então, essa data específica, tão fortemente associada ao Natal em todo o mundo ocidental? A resposta exige um pouco de história romana, e é importante apresentá-la com honestidade — inclusive reconhecendo que há debate acadêmico legítimo sobre a cronologia exata dos eventos, mas o quadro geral é bem documentado.

O solstício de inverno no hemisfério norte, por volta de 21 a 25 de dezembro no calendário juliano usado por Roma, marcava, para praticamente todas as culturas agrárias e pagãs da Antiguidade, o ponto mais baixo da luz solar no ano — a partir do qual os dias voltavam a se alongar. Esse momento astronômico era carregado de significado religioso profundo nas religiões pagãs do Mediterrâneo e do Oriente Próximo, celebrado como o "renascimento" simbólico do sol depois de sua morte aparente durante o período mais escuro do ano.

Em Roma, esse período coincidia com a Saturnália, uma das festas mais populares do calendário romano, dedicada ao deus Saturno, celebrada tradicionalmente entre 17 e 23 de dezembro, marcada por banquetes, inversão temporária das hierarquias sociais, trocas de presentes e decoração das casas com vegetação perene — muitos desses elementos culturais específicos permaneceram, de forma adaptada, nas celebrações natalinas posteriores, ainda que os historiadores debatam o grau exato de conexão direta entre as duas festas.

Paralelamente, e de forma mais diretamente ligada à data de 25 de dezembro especificamente, havia o culto ao Sol Invictus ("Sol Invencível"), promovido de forma especialmente vigorosa pelo imperador romano Aureliano, que no ano 274 d.C. instituiu formalmente o dies natalis Solis Invicti — literalmente, "o dia do nascimento do Sol Invencível" — como festa oficial do império, unificando diversos cultos solares preexistentes (incluindo elementos do culto persa a Mitra, extremamente popular entre os soldados romanos) numa única celebração solar centralizada, situada exatamente no solstício de inverno.

É importante, com honestidade histórica, reconhecer que a datação exata da primeira celebração cristã do nascimento de Yeshua em 25 de dezembro, e sua relação cronológica precisa com o culto ao Sol Invictus, é objeto de debate entre historiadores: o registro documental mais antigo e seguro de ambas as celebrações associadas a essa data — tanto a pagã quanto a cristã — vem do mesmo documento, o chamado Cronógrafo (ou Calendário Filocaliano) do ano 354 d.C., o que torna a questão de "quem copiou de quem" historicamente mais complexa do que costuma ser popularmente apresentada. O que permanece incontestável, e é o ponto relevante para este estudo, é o seguinte: a data de 25 de dezembro tinha, muito antes e independentemente de qualquer celebração cristã, um peso religioso pagão profundo e generalizado em todo o mundo romano, ligado ao culto solar e ao solstício de inverno — e nada na cronologia bíblica, como vimos no Passo 2, aponta para essa mesma data como sendo a do nascimento real de Yeshua.

A honestidade histórica exige reconhecer esse debate acadêmico sobre a precedência exata das datas. Mas o argumento central deste estudo não depende de resolver essa disputa histórica: mesmo que a Igreja do século IV tenha escolhido essa data por razões teológicas simbólicas (associar o "nascimento da luz verdadeira" ao ponto do ano em que a luz solar recomeça a crescer), a data continua sendo estranha à cronologia bíblica real, e sua celebração continua carregando, historicamente, associações solares e pagãs profundamente arraigadas na cultura ocidental até os dias de hoje — desde a árvore decorada até a grinalda, símbolos que remontam a esses mesmos cultos de vegetação perene e solstício.

PASSO 5 — O aviso da Torá contra os costumes das nações

Jeremias 10: "não aprendais o caminho das nações"

A Escritura não é omissa quanto a este tipo específico de sincretismo — a adoção, por parte do povo de Deus, de símbolos e costumes originalmente pagãos, mesmo quando reinterpretados com uma nova intenção religiosa. O texto mais diretamente relevante para essa discussão é surpreendente em sua precisão de detalhes, e vale a pena ser lido com atenção total:

Assim diz o SENHOR: Não aprendais o caminho das nações, nem vos espanteis dos sinais dos céus; porque com eles se atemorizam as nações. Porque os estatutos dos povos são vaidade; pois corta-se do bosque um madeiro, obra das mãos do artífice, com machado. Com prata e com ouro o enfeitam, com pregos e com martelos o firmam, para que não se mova.  (Jeremias 10:2-4)

Uma árvore cortada da floresta, decorada com prata e ouro, firmada com pregos para que não se mova — é impossível não notar a semelhança impressionante entre essa descrição, escrita mais de seiscentos anos antes de Yeshua, num contexto totalmente diferente (o profeta denuncia especificamente os ídolos de madeira entalhada da Babilônia), e a imagem cultural hoje universalmente associada ao Natal: uma árvore cortada, trazida para dentro de casa, decorada com ornamentos dourados e prateados, e fixada numa base para que não caia. É importante, com honestidade exegética, reconhecer que Jeremias não está profetizando sobre árvores de Natal — ele está denunciando a fabricação de ídolos de madeira revestidos de metais preciosos, uma prática idólatra específica da sua própria época. Mas o princípio espiritual subjacente ao texto — a advertência categórica contra aprender e adotar "o caminho das nações" em matéria de prática religiosa — permanece plenamente válido e diretamente aplicável, independentemente da coincidência descritiva.

O restante do capítulo reforça esse mesmo princípio, contrastando a vaidade dos costumes religiosos copiados das nações com o único Deus verdadeiro:

São como espantalho no pepinal, e não podem falar; necessitam de ser levados aos ombros, porquanto não podem andar; não tenhais temor deles, pois não podem fazer o mal, nem tampouco têm poder de fazer o bem.  (Jeremias 10:5)

O padrão bíblico de Deus quanto à adoração é consistentemente o oposto de "tomar emprestado" símbolos e datas das religiões vizinhas e simplesmente redirecioná-los a Si mesmo. Quando Israel tenta fazer exatamente isso — misturar a adoração ao SENHOR com formas e costumes das nações ao redor —, a resposta profética é sempre de correção severa, nunca de aprovação por causa da "boa intenção" por trás da mistura. O caso mais emblemático de todo o Tanakh é o bezerro de ouro, onde Arão, ao ceder à pressão do povo, tenta precisamente essa fusão sincrética — usar uma imagem de culto egípcio familiar ao povo, mas declarando que a festa era "ao SENHOR":

E ele os tomou das suas mãos, e fê-lo em forma com um buril, e fez dele um bezerro de fundição; então, disseram: Este é o teu deus, ó Israel, que te tirou da terra do Egito. E Arão, vendo isto, edificou um altar diante dele; e apregoou Arão, e disse: Amanhã será festa ao SENHOR.  (Êxodo 32:4-5)

Note a estrutura precisa: a imagem é pagã em sua origem, mas a intenção declarada por Arão é sincera — "festa ao SENHOR", não a um deus estrangeiro nomeado. E, ainda assim, a resposta de Deus é de ira e juízo severo (Êxodo 32:7-10), não de aceitação complacente da boa intenção por trás do símbolo emprestado. Este padrão bíblico é a base teológica mais sólida para a cautela desta congregação quanto à adoção de qualquer prática cuja origem histórica seja identificavelmente pagã, mesmo quando reinterpretada com sinceridade em direção a Yeshua.

PASSO 6 — O perigo espiritual por trás do símbolo

Paulo em Corinto: comunhão com demônios através do que parece neutro

Alguém poderia objetar, nesse ponto, que símbolos são apenas símbolos, e que sua origem histórica não determina necessariamente seu significado espiritual presente — afinal, uma árvore ou uma data em si não têm poder algum. É precisamente esse raciocínio que Paulo aborda diretamente, no mesmo capítulo já examinado em outro estudo desta congregação sobre alimentos sacrificados a ídolos, e vale a pena revisitar seu argumento aqui, porque ele trata exatamente da questão espiritual subjacente à prática ritual de origem pagã:

Que digo, pois? Que o ídolo é alguma coisa? Ou que o sacrifício da carne aos ídolos é alguma coisa? Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus. E não quereria que vós entrásseis em comunhão com os demônios. Não podeis beber o cálice do Senhor, e o cálice dos demônios; não podeis ser participantes da mesa do Senhor, e da mesa dos demônios.  (1 Coríntios 10:19-21)

O argumento de Paulo é sutil e importante: ele não afirma que o ídolo de pedra ou madeira, em si mesmo, tem algum poder real — "o ídolo é alguma coisa?", pergunta ele retoricamente, esperando a resposta óbvia de que não. Mas ele afirma, com a mesma clareza, que por trás desses rituais e símbolos religiosos pagãos, historicamente instituídos para a adoração de divindades falsas, existe uma realidade espiritual demoníaca genuína, e que participar desses rituais — mesmo sem crer pessoalmente no poder do ídolo — constitui, ainda assim, um ato de comunhão espiritual com essa realidade demoníaca subjacente. É esse princípio, e não uma crença mágica em objetos amaldiçoados, que fundamenta a cautela quanto à adoção de datas e símbolos com raízes claramente identificáveis em cultos solares pagãos como o Sol Invictus e a Saturnália: a questão não é se a árvore decorada tem, ela mesma, algum poder espiritual — é que ela carrega, historicamente, uma associação ritual com sistemas de adoração dedicados a outras entidades espirituais, e a Escritura nos adverte a não misturar essas duas fontes.

É importante ressaltar, com equilíbrio pastoral, que esta congregação não ensina que cada família que celebra o Natal está, de forma consciente e deliberada, adorando demônios — a esmagadora maioria das pessoas que celebram essa data hoje o fazem com sinceridade voltada a Yeshua, sem qualquer consciência das raízes históricas aqui expostas, exatamente como Arão, ao erguer o bezerro de ouro, provavelmente também não tinha consciência plena da gravidade sincretista do seu próprio ato. O ponto deste estudo não é julgar a consciência individual de quem celebra, mas explicar, com base bíblica e histórica sólida, por que esta congregação, tendo tomado conhecimento dessas raízes, opta conscientemente por não adotar essa data e esses símbolos em sua própria prática de adoração — preferindo, em vez disso, celebrar o nascimento do Messias dentro do calendário e da linguagem que a própria Escritura nos oferece, ancorados, como vimos no Passo 2, muito provavelmente na estação de Sucot.

PASSO 7 — Síntese: a alternativa messiânica

Celebrar o nascimento sem adotar a data pagã

Nada neste estudo diminui a alegria genuína e central do nascimento do Messias — pelo contrário, reconstruir a cronologia bíblica real, com seus detalhes precisos de turnos sacerdotais, meses e festas, aprofunda a apreciação da soberania divina sobre cada detalhe do nascimento. O que este estudo recusa não é a celebração do nascimento de Yeshua, mas especificamente a data e os símbolos historicamente associados a cultos solares pagãos, que a própria Escritura nos adverte a não adotar mesmo com boas intenções.

A alternativa messiânica não é o silêncio sobre o nascimento, mas a celebração dela dentro do próprio calendário bíblico — seja meditando sobre o nascimento durante Sucot, à luz da conexão textual com João 1:14 já examinada, seja simplesmente mantendo viva, ao longo do ano, a compreensão de que Yeshua, o Verbo feito carne, tabernaculou entre nós, cumprindo, como demonstrado em outro estudo desta congregação, a profecia de Miqueias sobre Belém e a promessa do trono eterno de Davi — sem a necessidade de emprestar, para essa celebração, uma data e um conjunto de símbolos que a história registra terem pertencido, muito antes de qualquer conexão cristã, ao culto do sol vencendo as trevas do inverno.

 

Não recusamos o Natal por falta de amor ao nascimento do Messias — recusamos precisamente por amor a Ele, e por reverência à advertência clara da Torá contra misturar a adoração ao Deus vivo com os costumes das nações. Yeshua nasceu; Deus tabernaculou entre nós; e essa verdade não precisa, e não deve, tomar emprestada a data do nascimento do sol.

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